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Nada como um dia após o outro

Por João Vitor Rezende em 22/10/2019 10:55:38

Nada como um dia após o outro

Há um pouco mais de um ano, discutíamos o que era municipalização sem saber de quem era o terreno do Estádio Germano Krüger. Na semana passada, a Prefeitura Municipal de Ponta Grossa revelou ser a proprietária do espaço, que deverá ser cedido ao Operário Ferroviário após aprovação do projeto de lei na Câmara de Vereadores.

O principal motivo da votação na sede social do alvinegro em setembro de 2018 foi a possibilidade de obter recursos públicos para obras no local. O principal intuito da atual doação do terreno ao clube também é captação de recursos, mas desta vez de ordem privada, pois “no poder público tudo é mais complicado, uma parceria público-privada poderia demorar anos para ser feita e pendências judiciais poderiam acontecer”, como justificou o prefeito Marcelo Rangel.

Rangel também citou que um possível banco poderia surgir como possível interessado a bancar os investimentos. Representando o Operário no anúncio, o presidente do clube, David Aroldo Nascimento, afirmou que aguarda oficialização para buscar parcerias. Já o presidente do Grupo Gestor, Álvaro Goes, preferiu não comentar o caso. Inclusive, este não esteve presente na cerimônia, por estar no arbitral do Campeonato Paranaense. Nem o secretário de esportes, Marco Macedo, que estava em Toledo acompanhando os Jogos Abertos, se fez presente.

Esta agitação nos bastidores do clube não foi suficiente. Dias depois surge um novo abacaxi pra ser descascado, desta vez com uma casca mais dura e um sabor amargo. Ou salgado, eu diria. Tão salgado quanto o preço dos ingressos que o Coritiba determinou para o setor de visitantes do Couto Pereira na partida contra o Fantasma na próxima quinta-feira (24).

Como defini em meu Twitter pessoal, a decisão da diretoria do Coxa representa o que é o futebol brasileiro em sua essência: individualista, vingativo e com o prejuízo indo pras costas do torcedor. Porém, não é por menos. “Cada ação gera uma reação”, me disse Alvaro Goes momentos depois da confirmação do valor de R$ 150 para os torcedores operarianos. Em dois jogos na temporada, no Paranaense e na Série B, a torcida alviverde pagou o mesmo valor no Germano Krüger. A reação veio na mesma medida, até que tardia pelo comportamento usual dos clubes brasileiros, mas executada.

Aqui, aproveito para fazer uma ressalva: poucos eventos no Brasil valem o preço de R$ 150. No futebol, por sua essência popular e o nível do jogo praticado no país (ainda mais na Série B), isso é ainda mais raro, válido apenas para situações extremas. Para quem acha que estou exagerando, basta lembrar que esse custo corresponde a quase 15% do salário-mínimo.

Uma estratégia não pode sustentar este fato como argumento, pois é possível contrabalancear benefícios ao sócio-torcedor em relação aos torcedores ocasionais no valor do ingresso de uma forma mais amena. Mesmo com a estabilização do Operário na Série B, o público nos jogos e o programa de sócio ainda não alavancaram como o esperado.

Por fim, uma última questão. Se o futebol é do povo, por que criamos tanta dificuldade pra que o povo o prestigie? Com os ingressos majorados, além das dificuldades de estrutura, acesso, transporte e, em alguns casos, violência, o Brasil não tem nenhum clube no top-50 das maiores médias de público nas últimas cinco temporadas e tem na sua elite o 13º campeonato mais visto do mundo. Esta posição nos deixa atrás das ligas da China (com 15 anos de existência), EUA (na 26ª temporada), Japão e as segundas divisões de Alemanha e Inglaterra.

Estádios cheios, o ‘duelo’ entre os cantos das torcidas e a festa nas arquibancadas só contribui para deixar o espetáculo ainda melhor. Ainda mais em um cenário com a maioria dos clubes mal geridos e com ‘o pires na mão’, onde qualquer receita é bem-vinda. Entretanto, isso é posto de lado em nome do ego. Seria tão absurdo as cinco equipes paranaenses que estão nas duas primeiras divisões acordarem valores máximos para o ingresso em seus domínios, se juntando também para outros assuntos de interesse comum? Enquanto a roda girar como tem girado por aqui, isso ficará apenas no nosso imaginário.

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João Vitor Rezende

JOãO VITOR REZENDE

Jornalista formado pela UEPG em 2017, foi repórter de Cotidiano e Esportes do Jornal da Manhã e acompanha o Operário desde 2016. Trabalhou na assessoria de imprensa do Keima Futsal e do Ponta Grossa Caramuru Vôlei. Trabalha como fotógrafo na AGIF. É repórter e apresentador no Net Esporte Clube.