Operário: O time dos ferroviários no estádio dos trabalhadores

Operário: O time dos ferroviários no estádio dos trabalhadores

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Quando recebi o convite para ser colunista do NEC, fiquei pensando como um historiador poderia contribuir para um site que tem na essência a cobertura esportiva da nossa cidade? O historiador é um profissional que, costumo brincar, é uma espécie de profeta do passado. É o riscado do historiador falar e tecer explicações sobre as tramas sociais e culturais no decorrer do tempo, que constroem a nossa identidade contemporânea. O esporte, especialmente o futebol, não foge dessas teias que nos explicam como sociedade. Foi essa a sugestão que recebi do jornalista Emmanuel Fornazari para tocar esse espaço aqui no NEC, tentar escrever um bocado sobre a pelota, as torcidas, a história, a sociedade, uma pitada de música, cultura... das coisas que todos enxergam e daquelas que ficam também no breu.

Para começar essa epopeia vou colocar no centro do balacobaco a estreia do Operário Ferroviário na Copa São Paulo de Futebol, tradicional torneio de categorias de base que abre o calendário do futebol brasileiro. Em 2020 é a primeira vez que o Fantasma joga a “Copinha”, algo valioso para um clube que se consolida cada vez mais como um personagem importante do futebol nacional. Além de revelar novos talentos, a Copinha representa um desafio técnico que, de toda forma, engrandece a experiência e a competitividade das categorias de base de Vila Oficinas, vide o jogo de estreia dos garotos, logo contra o atual campeão, o São Paulo Futebol Clube. Mas as análises técnicas e táticas vou deixar para quem sabe. Minha onda é outra!   

O Operário Ferroviário joga a primeira fase da Copinha na cidade de São Bernardo, município que faz parte da região metropolitana da grande São Paulo e compõe também o famoso ABCD Paulista. Quando eu fiquei sabendo dessa informação, ainda no final de 2019, de imediato lembrei que o estádio municipal de São Bernardo, sede de todos os jogos do grupo do Operário Ferroviário, é um estádio de futebol histórico em nosso país, talvez muito mais pela política que pelos acontecimentos do esporte bretão.

A região de São Bernardo e de todo o ABCD (Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema) historicamente recebeu um intenso processo de industrialização a partir dos anos 70 com empresas dos mais variados ramos: eletrodomésticos, brinquedos, metal-mecânica e principalmente automobilística. Empresas nacionais e internacionais começaram a se instalar na região para desenvolver suas atividades, por certo, a região também passou a concentrar um número significativo de trabalhadores e trabalhadoras.

Se durante o fim dos anos 60 e início dos 70, a economia brasileira passava por um momento de euforia e crescimento do PIB, alardeada pelo “milagre econômico” do governo militar, o fim dos anos 70 e começo dos anos 80, a economia brasileira enfrentava um forte retrocesso com achatamento dos salários e principalmente uma inflação cada vez mais descontrolada. Em resumo, os salários passaram a colocar menos comida na mesa do brasileiro, ao mesmo tempo que grandes multinacionais não se dispunham a negociar com os trabalhadores uma remuneração salarial melhor.

Foi nesse clima de insatisfação que os operários passaram a se organizar de maneira coletiva e também institucional nos sindicatos, mesmo num período de perseguições e pouca abertura política, características evidentes da ditadura civil-militar brasileira. As greves não eram permitidas, as organizações trabalhistas eram vistas pelo governo como campo propício à divulgação de ideias de esquerda, tidas na época como “subversão”. Mesmo assim, os operários do ABCD passaram a atuar coletivamente na organização de um movimento que pudesse ser um ato de mudança perante a situação de desvalorização do trabalho. Os metalúrgicos de São Bernardo, liderados na época por Luiz Inácio Lula da Silva, começaram a significar uma potência política não só na luta pela valorização salarial, mas contra toda a estrutura do Estado brasileiro mergulhado numa ditadura que renegava ao povo o direito fundamental de escolher seus representantes políticos através de eleições diretas.

Nesse estádio que o Operário Ferroviário joga na Copinha, no ano de 1979 aconteceu o início de uma das greves mais importantes da história do Brasil. Cerca de 80 mil trabalhadores organizaram nas arquibancadas e gramado, uma assembleia que decidiu paralisar as atividades nas fábricas se as exigências do movimento grevista não fossem ao menos abertas à negociação com os representantes patronais da FIESP e empresas. O clima, por certo, foi de tensão. Um mar de trabalhadores dentro de um estádio de futebol, absolutamente sitiado pelas forças militares estaduais e federais, sob ameaça constante de repressão.

Se hoje em dia as opiniões sobre Luiz Inácio Lula da Silva são acirradas (há quem idolatre-o, há também quem odeie o ex-presidente) é inegável que naquele momento, naquele ano de 1979, uma liderança importante surgia no cenário político brasileiro dentro do Estádio Municipal de São Bernardo, situado na histórica Vila Euclides. Foi nesse estádio que os metalúrgicos passaram não só a lutar pela classe, mas também endossar as fileiras democráticas que ganhavam força na transição dos anos 70 para os 80, tendo como expoente máximo o amplo, heterogêneo e suprapartidário movimento das “Diretas Já”.

Das coincidências da vida: o Operário Ferroviário, time fundado pelas mãos de trabalhadores da linha do trem em um período que o futebol ainda era esporte da aristocracia brasileira, estreia na Copinha justamente num lugar que transpira luta de trabalhadores, luta de operários. Por fim, dessas coisas que talvez só os astros, cartas e búzios possam explicar, alguém sugere qual é o nome oficial do estádio em São Bernardo que o OFEC joga sua sorte na copinha? Estádio Municipal 1º de Maio. Claro, uma homenagem ao dia dos trabalhadores, um feriado nacional e data de aniversário sabe de quem? Sim, do Fantasma da Vila.

Os trabalhadores na vida, na lida e no futebol. Que os meninos da Vila Oficinas façam também uma grande história na Vila Euclides, uma história de vitória nesse 1º de maio, em pleno janeiro de verão tropical.

Foto: José Tramontin/Operário

*Textos de colunsitas não refletem, necessariamente, a opinião do Net Esporte Clube

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Felipe B Soares

Felipe B Soares

Graduado em História pela Universidade Estadual de Ponta Grossa, mestre em História pela mesma instituição, Felipe Soares é professor de História na rede privada de ensino e cursos preparatórios. Co-fundador do Canal Historiô, destinado à discussão pública sobre história, cultural e memória em Ponta Grossa e região, no Net Esporte Clube escreve sobre história, esporte e sociedade locais.