Não é à toa que a camisa de um clube é definida como manto sagrado

Não é à toa que a camisa de um clube é definida como manto sagrado

Schumacher, acompanhado por Batatinha, comemora gol pelo Operário no Estadual - Foto: João Vitor Rezende

Antes de começar o campeonato paranaense, a diretoria do Operário Ferroviário divulgou o novo uniforme utilizado pela equipe no ano de 2020. Logo depois que as imagens foram disponibilizadas e começaram a circular nas redes sociais foi inevitável a repercussão de torcedores, todos eles destilando pitacos aqui e acolá. Esse é um dos motivos que fazem eu amar esse esporte chamado futebol. Muito mais que passes, gols, táticas e toda essa nomenclatura carrancuda tão exaltada ultimamente, o futebol enraizado na vida do povo faz com que qualquer mortal passe a ter uma opinião refinada sobre moda, como se fôssemos verdadeiros estilistas de Milão ou Paris. E quem disse que não somos?

A minha opinião sobre o novo uniforme nada vale e nem valerá, portanto, não vou nem gastar o precioso tempo do leitor para expor tão insignificante achismo. O que quero chamar atenção aqui, no entanto, é justamente o motivo da importância da camisa para um time de futebol. Alguém mais pragmático já deve se apressar em dizer que ‘o uniforme de um clube serve apenas para diferenciar a agremiação durante uma partida’. Será? 

Para os torcedores, claro, os torcedores, esses fidalgos que alimentam o jogo e tudo que nele se envolta, a camisa de seu time é uma extensão da própria vida. A camisa de seu time é como se fosse parte da sua identidade, daquilo que você é em essência. A camisa de seu time representa as tardes quentes de domingos na arquibancada, a emoção do gol aos 48 do segundo tempo, a decepção de uma eliminação inesperada. A camisa de seu time é como se fosse parte de seu corpo, igual a mão, a cabeça e os pés. Ela é uma bandeira vital de vitórias e derrotas, alegrias e decepções, alívio e nervosismo. 

A camisa de seu time é um símbolo de coletividade entre aqueles que são como você, daqueles que escolheram, sabe-se lá o motivo, sofrer e se alegrar pela mesma coisa que você. O futebol como esporte moderno é também um jogo que simula a guerra, não no sentido da violência (que fique claro), mas no sentido de vencer o outro, organizar aqueles que são iguais e conquistar o outro que, por consequência, veste outra camisa, outra farda e tem outras cores, outros ídolos, outra história.

A camisa de seu time não é apenas um pedaço de pano e tinta, ela é também um signo de lembranças e histórias, talvez até de superstição. Duvida? Vá ao estádio e constate que há pessoas que juram que aquela camisa é a “da sorte”, mesmo que a camisa tenha perdido uma porção de jogos também. A camisa de seu time é também um instrumento de ancestralidade, no momento em que você ganha a primeira do pai ou da mãe, depois que cresce, vira adulto e repete o mesmo ritual com seus filhos, seus netos, antes mesmo deles saírem da maternidade. A camisa de seu time cobre seu peito quando o coração bate mais forte e está prestes a sair pela boca. 

Se você ainda acredita que a camisa é tão somente uma peça de vestuário a ser vendido e comprado, permita-me dizer que não é de futebol que você não entende. Você não entende é da própria vida e do amor.

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Felipe B Soares

Felipe B Soares

Graduado em História pela Universidade Estadual de Ponta Grossa, mestre em História pela mesma instituição, Felipe Soares é professor de História na rede privada de ensino e cursos preparatórios. Co-fundador do Canal Historiô, destinado à discussão pública sobre história, cultural e memória em Ponta Grossa e região, no Net Esporte Clube escreve sobre história, esporte e sociedade locais.