Para recomeçar, o futebol brasileiro tem que olhar seu contexto

Para recomeçar, o futebol brasileiro tem que olhar seu contexto

Decisão para o retorno do futebol deve partir quando for seguro para todos - Foto: João Vitor Rezende

Sim, estamos todos com saudades do futebol. Desde o dia 15 de março, a bola não rola por aqui em função de uma outra partida muito mais importante. A luta contra o coronavírus merece toda nossa atenção, mas os dirigentes de clubes e da CBF já concatenam alternativas para o retorno do futebol brasileiro.

Antes de qualquer coisa, é bom ressaltar que este que vos escreve e este site que você acompanha também, assim como você, anseia pela volta do esporte bretão por diversos motivos, inclusive também afetados pelo financeiro, tão levado em conta nas discussões que deveriam ser restringidas a saúde neste momento.

Em entrevista ao NEC durante a última semana, o presidente do Grupo Gestor do Operário, Álvaro Góes, revelou que o cenário mais provável aponta para o calendário sendo reiniciado já em maio, mesmo que haja a necessidade de partidas com portões fechados.

Este cenário demonstra que o contexto geral do futebol parece se importar mais com o que vai acontecer dentro dele do que ao seu entorno. Portanto, antes de falar do que pode acontecer nas quatro linhas e a expectativa para o retorno das atividades, é necessário abrir um parenteses neste texto para falar de saúde, com a situação atual em âmbito nacional e estadual da pandemia.

Número de casos
O relatório diário do Ministério da Saúde divulgado neste sábado (11) indicou 20727 casos confirmados e 1124 óbitos, com taxa de letalidade de 5,4%. Colocando um ‘mínimo’ de 300 casos, 11 estados com representantes nas três principais divisões nacionais já passaram este número. Seis deles são: Bahia, Maranhão, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Completam a lista Amazonas, Ceará, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo, mas estes estão em situação crítica de seus sistemas de saúde.

Um dos indicativos disponibilizados pelo Governo Federal contabiliza o número de casos por semana epidemiológica. Nos últimos sete dias, registramos 39% de aumento de infectados e o número de mortes dobrou em relação à semana anterior. Sendo assim, o Brasil registra um crescimento exponencial de casos e a curva tende a piorar na segunda quinzena de abril, período esperado para o início do pico no país.

Entre as cidades paranaenses com times que ainda disputam o Estadual, Ponta Grossa é a única que não tem óbitos confirmados. Curitiba concentra os maiores números, com 279 casos e cinco mortes. Cascavel registrou 58 casos e já tem dois óbitos constatados. Paranaguá tem cinco casos confirmados e duas mortes. Por fim, Cianorte confirmou 13 casos e tem um óbito.

E o que isso importa?
O Operário Ferroviário tem sede em uma cidade que a situação está (aparentemente) controlada. Porém, o contexto geral é necessário para avaliar a situação. Se pelo lado esportivo, representantes de Cianorte, FC Cascavel e Londrina já declararam ao NEC que não tem interesse em retomar o Paranaense e o Rio Branco dispensou seus atletas e comissão técnica no início da paralisação, o avanço da pandemia nestes municípios também pode ser contrário à retomada do futebol no próximo mês.

O cenário é o mesmo a nível nacional. Os 11 estados citados anteriormente como bem afetados pelo coronavírus reúnem 49 dos 60 clubes das três primeiras divisões, número corresponde a 81% do total. Isso deve ser levado em conta para a retomada do calendário, visto que a padronização é fundamental. Como um estado retomará o seu campeonato local e outro não? Este fato poderá gerar um grande desequilíbrio a frente, visto que as federações vão desejar seu direito a cumprir seus jogos com essa jurisprudência.

Outro fator preocupante é a discussão em torno do número de datas do Campeonato Brasileiro – algo que nem deveria entrar em debate. A redução pro formato de mata-mata pode tirar 9 ou 10 jogos garantidos das equipes em seus mandos de campo. Logo, menos datas resulta em menos jogos transmitidos, menos jogos para oferecer aos sócios-torcedores e de exposição aos patrocinadores, perdas em bilheteria e uma alta queda de arrecadação. A fórmula com 38 jogos garantidos é essencial e tem de ser cumprida, nem que pra isso seja necessário invadir o ano de 2021, seja com a adaptação ao ‘calendário europeu’ ou como uma mera complementação de 2020.

O mais importante deve ser preservado: a saúde dos atletas, membros da comissão técnica, diretores, profissionais de imprensa que vão se deslocar para trabalhar nestas partidas, estarão em hotéis destas cidades e em contato com outras pessoas neste processo. Esperar agora é a melhor saída para anteciparmos a volta no futuro. Afinal, como diria o ex-técnico Arrigo Sachi: “O futebol é a coisa mais importante dentre as coisas menos importantes”.

Se cuidem, fiquem em casa e boa Páscoa!

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João Vitor Rezende

João Vitor Rezende

Jornalista formado pela UEPG em 2017, foi repórter de Cotidiano e Esportes do Jornal da Manhã e acompanha o Operário desde 2016. Trabalhou na assessoria de imprensa do Keima Futsal e do Ponta Grossa Caramuru Vôlei. Trabalha como fotógrafo na AGIF. É repórter e apresentador no Net Esporte Clube.