Amigo distante

Amigo distante

Vibração da torcida do Operário empurrou time para títulos - Foto: Arquivo RBM Assessoria

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O Operário nos últimos tempos vem parecendo aquele amigo que de repente começou a melhorar de vida, ficar mais ambicioso e deixou os colegas de antes para querer andar só com as novas amizades. Tenho certeza que você conhece alguém assim.

O Fantasma foi uma das poucas companhias que tive nessa quarentena. A TV, amiga solidária para muitas horas, exibindo a esquizofrênica campanha na Série B – hora sonhando com acesso, logo depois flertando com o Z4, depois se afastando do risco de rebaixamento, desmanchando elenco, para em seguida colar no G4 e acalentar os sonhos mais improváveis de subir para a elite – serviu de companheira fiel nos últimos meses.

Creio que não tenha sido diferente com outros muitos operarianos. Tenho certeza, inclusive, que ocorreu em escala ainda mais intensa de afeto e dependência. O Operário é, para muitos, um amigo de longa data, de quem sempre buscou estar próximo.

No entanto, ao que se desenha, o alvinegro vai se afastando cada vez mais de parte significativa de seus torcedores. O fechamento das arquibancadas imposto pela pandemia já deixou muitos longe do clube. Sem poder ir ao Germano Krüger, restou acompanhar a Série B pela televisão. Porém, a Segundona não tem transmissão na TV aberta e em muitas vezes a única alternativa foi o pay per view ou a ilegalidade aceita da pirataria.

O Paranaense está vindo aí e a perspectiva é que nem isso tenha, já que ninguém sabe como e onde vão passar os jogos, se é que em algum lugar vão ser transmitidos (conforme o vizinho de coluna Lucas Matos esmiuçou bem aqui). As arquibancadas, salvo o aglomero dos cinco mil vips do Maracanã na final da Libertadores faça mudar algum tipo de na decisão, deverão seguir fechadas.

Para completar, a diretoria anunciou um reajuste de planos do sócio torcedor, e a categoria Prata, aquela voltada para a maior faixa da arquibancada, que costuma concentrar o grosso do público (e sejamos honestos, que abriga a parte mais barulhenta e incentivadora do estádio), teve aumento de mais de 80%. Quem quiser sonhar em voltar a frequentar o Germano, sabe-se lá quando, vai ter que desembolsar uma quantia pesada de dinheiro.

Sem TV, sem arquibancada, cobrando preços deslocados da realidade de muita gente, o Operário parece às vezes querer seguir os passos do colega Athletico Paranaense, cujo mandatário comprou briga com meio mundo e voltemeia cospe marimbondos pelas redes sociais. Esse seu amigo aí é uma péssima influência, diriam algumas mães sobre o colega que o Operário parece às vezes querer se espelhar.

Sei bem que nos tempos atuais futebol é dinheiro, business, e rezam as leis não escritas do mundo corporativo que amizade e negócios não se misturam, mas ainda prefiro pensar o jogo como uma simbiose entre torcida e instituição.

Sem TV, sem arquibancada, sem ver – seja lá onde e como for – o time jogar, com preços não tão acessíveis, fica difícil uma aproximação tão necessária, ainda mais nos tempos atuais de pandemia.

Resta aqui o desejo de que estes últimos episódios não abalem esta história de lealdade, amor e amizade, que teve tantos episódios bons e ruins (como toda relação afetuosa que se preze). A lista de vontades primordiais dos operarianos hoje deve ser longa, por certo, mas com certeza ver o seu time jogar está entre as prioridades. Que não o privem desse desejo. Quem tem amigo, tem tudo.

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Jeferson Augusto

Jeferson Augusto

Jeferson Augusto é jornalista, formado pela UEPG, com mais de 15 anos de profissão. Foi repórter de Esportes por cinco anos no Diário dos Campos, além de ter atuado nas editorias de Cidades e Política. Foi chefe de Redação do mesmo jornal e hoje é assessor de comunicação da Associação Comercial, Industrial e Empresarial de Ponta Grossa (ACIPG). Acredita fielmente que futebol é mais do que um jogo, é uma das poucas coisas que reúne todas as sensações humanas em um curto espaço de tempo. Escreve sempre aos domingos.