Federação Paranaense revela dívida de R$ 60 mil do Ponta Grossa Vôlei

Valor é referente à participação da equipe na Superliga 2019/2020

Federação Paranaense revela dívida de R$ 60 mil do Ponta Grossa Vôlei

O antigo Caramuru carregou o nome de Ponta Grossa Vôlei em 2019/2020 - Foto: Pedro Paraíso/América Vôlei

A Federação Paranaense de Vôlei (FPV) cobra uma dívida de aproximadamente R$ 60 mil do Ponta Grossa Vôlei. O valor é referente à participação da equipe na Superliga Masculina 2019/2020. De acordo com a entidade, o depósito deveria partir de um grupo coordenado pela Prefeitura Municipal de Ponta Grossa, que diz não ter relação direta com o caso.

Para compreender o imbróglio é necessário voltar a novembro do ano passado, quando começou - segundo a FPV - a relação entre Federação e Prefeitura. Naquela oportunidade, a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) notificou a entidade estadual de que a vaga na Superliga 2019/2020 pertencia ao time ponta-grossense.

“Quando houve a desistência do Botafogo, a CBV entrou em contato conosco nos comunicando que a vaga era para o Caramuru. Naquele momento, o time tinha vaga definida apenas na Superliga B, que começaria em janeiro. Entramos em contato com o Fábio [Sampaio, treinador e ex-gestor] e com o Odilon [Zimermann, ex-diretor de marketing], e eles nos disseram que não tinham condições, que haviam conversado com a Prefeitura e optado pela segunda divisão. Eles disseram que o projeto tinha sido feito em cima disso, mas, como tinham sido convidados para ter o nome de ‘Ponta Grossa Vôlei’, a gestão financeira e as decisões seriam do grupo gestor”, relembra o presidente da Federação, Jandrey Vicentin.

A partir de então, a FPV afirma que passou a negociar diretamente com o Município.

“Entrei em contato com o Marco [Macedo, secretário de esportes] e consegui o telefone do prefeito, pois nós precisávamos dar uma resposta ‘a toque de caixa’ para a CBV. Entrei em contato com o Marcelo [Rangel, prefeito], disse pra ele quais eram as condições e mais detalhes sobre o convite. Aí ele me disse que não estava contente com a gestão da equipe, que tinham deixado muitas dívidas que não foram benéficas para o nome de Ponta Grossa e que estavam montando um comitê de gestão. Eles jogariam a Superliga B com uma equipe mais modesta para tentarem voltar à Série A”, detalha o dirigente.

Segundo o relato da FPV, o secretário Municipal de Administração, Ricardo Linhares, entrou em contato pouco depois com a Federação Paranaense buscando entender 'como funcionava o vôlei' e ter ciência dos custos como segurança, ambulância, arbitragem (incluindo deslocamento e hospedagem), sistema de som nos dias de jogos e demais taxas necessárias.

“Dissemos a eles que cada jogo deveria custar cerca de R$ 10 mil fora a manutenção da equipe”, expõe Jandrey.

O grupo teria então feito um apelo ao então presidente da FPV, Neuri Barbieri - que estava licenciado - para fazer o complemento do pagamento da taxa de inscrição na elite da Superliga Masculina, aproveitando a saída do Botafogo.

Na época, a equipe já havia feito o pagamento da taxa de inscrição da Superliga 'B' no valor de R$ 7 mil. Porém, para competir na primeira divisão, seria necessário bancar R$ 18 mil - valor com um percentual de desconto incluso. Atendendo ao pedido dos novos gestores do Ponta Grossa Vôlei, a Federação realizou o pagamento imediato dos R$ 11 mil restantes para confirmar a inscrição do time. Havia o compromisso de que o valor seria ressarcido posteriormente.

Segundo a FPV, apesar de interferir no caixa da entidade, é procedimento comum o auxílio financeiro aos clubes filiados. “A Federação sempre facilitou. Eles não precisavam ter o dinheiro na hora do pagamento dos árbitros, por exemplo. Isso acontecia com o Curitiba Vôlei, Maringá, o próprio Caramuru em outras edições. Tudo para facilitar. Só que nesta temporada nós não tivemos nenhum pagamento e, mesmo entrando em contato com o Marco Macedo - que foi a pessoa destinada para a nossa comunicação - sempre tinham alguma limitação”, explica Jandrey.

Questionado sobre a dívida, o secretário Municipal de Esportes, Marco Macedo, admite que a pendência com a FPV existe, mas elucida que a gestão não possui vínculo direto com a Prefeitura de Ponta Grossa.

De acordo com ele, a gestão anterior da equipe - quando carregava o nome de Caramuru Vôlei - deixou salários pendentes com jogadores, o que ocasionou incômodo no município. Para evitar esta má impressão para a cidade novamente, a Prefeitura solicitou que a gestão da equipe fosse alterada. Assim, Fábio Sampaio passou a ficar somente com o cargo de treinador.

Macedo frisa que, apesar da interferência da Prefeitura, o novo grupo formado não pertencia ao poder público. "Na verdade não é a Prefeitura que tem débitos. A Prefeitura não tem vínculo nenhum com a Associação Caramuru e com o vôlei em si. Na realidade acontece que estamos dependentes de receber recursos dos patrocinadores para saldar a pendência que ficou na Federação. Isso vai ser liquidado, mas nós estamos dependendo desse recurso que neste momento [pandemia] acabou sendo atrasado", expõe o secretário. (Veja abaixo na reportagem mais detalhes).

Para o pagamento da taxa de inscrição no campeonato - sem contar as taxas subsequentes para inscrições de atletas, o presidente da FPV relata que a primeira data estipulada para pagamento foi o dia 8 de janeiro. Porém, o prazo foi postergado para o dia 22 do mesmo mês e também não foi cumprido. Desde então, o imbróglio continua sem resolução.

“Entramos em contato com o [Ricardo] Linhares, ele nos atendeu, disse que estava difícil, mas mais difícil estava para nós, pois tínhamos de bancar o pagamento dos árbitros. Não seria justo eles ficarem sem receber. Assim tiramos dinheiro do nosso caixa. Não é justo com os outros filiados”, afirma.

AS DÍVIDAS

O presidente da Federação Paranaense de Vôlei optou por não apresentar extrato quantificado da dívida. Ele alega que se trata de um documento interno da entidade e que poderia comprometer a relação comercial com a Associação Caramuru Vôlei e demais envolvidos no imbróglio. Porém, Jandrey forneceu ao NEC uma estimativa dos gastos:

- Cerca de R$ 4 mil por jogo para pagamento dos custos de arbitragem: foram dez jogos em casa nesta temporada;

- R$ 500 para a inscrição de cada um dos integrantes da equipe: 18 atletas constam no site da CBV e ao menos três nomes da comissão técnica;

- R$ 11 mil para complementar o valor da taxa de inscrição do time na Superliga Masculina 2019/2020.

Estimativa total: R$ 61,5 mil

COMO FUNCIONAVA O SISTEMA FINANCEIRO DO PG VÔLEI?

O secretário Municipal de Esportes, Marco Macedo, esclarece que o setor financeiro do Ponta Grossa Vôlei não tinha intermediários. O repasse de salários, por exemplo, era realizado diretamente entre patrocinador e jogador.

"A gente deixou a cargo exclusivamente dos patrocinadores. Não tínhamos nenhum movimento financeiro com relação à equipe. Os patrocinadores pagavam direto aos atletas. Nós dávamos apenas um direcionamento: 'olha, vocês vão ter que pagar os atletas, vão ter que pagar ali o fornecedor da alimentação'. Era tudo feito dessa forma. O próprio patrocinador depositava o dinheiro na conta. Eles tinham uma relação com o nome de todos os atletas, conta bancária e faziam o pagamento na conta de cada um", explica.

Segundo o secretário, esse método foi aplicado para evitar os atrasos salariais que ocorreram em temporadas anteriores."Era para não acontecer aquilo que ocorreu no passado. A gente sabe que atletas anteriores saíram falando mal da cidade, pois não receberam".

Além dos débitos com a Federação, Marco Macedo admite que há outras dívidas do Ponta Grossa Vôlei não quitadas. "Temos outras pendências também e que vamos liquidar mais pra frente quando entrar esse recurso [dos patrocinadores]. São coisas pequenas", afirma.

SECRETARIA MUNICIPAL DE ADMINISTRAÇÃO

O NEC entrou em contato com a Secretaria Municipal de Administração e Recursos Humanos - encabeçada por Ricardo Linhares (citado pelo presidente da FPV). Via assessoria, a Secretaria deu o seguinte retorno: "Esta informação não procede. O Município não tem relação com a contratação de arbitragem ou taxas do Ponta Grossa Vôlei ou sequer recebeu pedido nesse sentido".

Poucos dias depois, o secretário Ricardo Linhares entrou em contato com a Federação Paranaense de Vôlei e efetuou um depósito. A FPV confirmou a situação ao NEC, mas informou que o valor depositado não chega a 10% da dívida de cerca de R$ 60 mil.

Em novo contato da reportagem, a assessoria da Secretaria Municipal de Administração e Recursos Humanos respondeu: "O secretário Ricardo Linhares esteve em contato com a Federação Paranaense de Vôlei, de forma voluntária e sem vínculo com a Prefeitura, na tentativa de intermediar um acordo entre a FPV e o time, sem assumir compromisso com o pagamento de valores. Conforme informamos anteriormente, a Prefeitura não tem relação com a contratação de arbitragem ou taxas do Ponta Grossa Vôlei".

ANTIGA GESTÃO

Responsável pela gestão do antigo Caramuru Vôlei, Fábio Sampaio ocupou apenas o cargo de treinador no Ponta Grossa Vôlei. Questionado sobre a dívida, Sampaio afirma desconhecer a questão.

"Não sei bem ao certo com quem foi feito o acordo da Federação, mas foi o pessoal da Prefeitura de Ponta Grossa que fez toda a gestão da última temporada [2019/2020]. O Caramuru não tinha relação com taxa de arbitragem e inscrição de atletas. Eu achava que estava tudo certo, pois não chega nada para nós sobre dívidas. Não está relacionado aos nossos encargos".

PRÓXIMOS PASSOS E O FUTURO DO PG VÔLEI

Após mais de seis meses da pendência, o presidente da Federação Paranaense comenta que a entidade não tomou medidas judiciais para resolver o pagamento e que ainda aguarda uma resolução sem trâmites burocráticos. "Até poderíamos pensar em medidas judiciais, mas estamos em uma pandemia. A Federação não tem um departamento jurídico fixo, então teríamos que contratar esse serviço para levar essa cobrança adiante”, explica.

“Esperávamos que essa negociação institucional fosse criar efeito, mas infelizmente isso não evoluiu”, complementa.

O valor devido pelo Ponta Grossa Vôlei pagaria 50% de toda a arbitragem dos campeonatos estaduais de base em um ano ‘normal’, com o calendário cheio. “Esse valor seria muito importante para mantermos as nossas competições com a excelência que sempre tivemos. Nós somos uma das poucas entidades que transmite as suas competições, temos nossa equipe própria e transmitimos do Sub-14 ao Adulto. Nós estamos sem receita neste momento. Nos três meses da pandemia nosso fluxo de caixa caiu cerca de 90% pela falta de competições”, evidencia Jandrey.

De acordo com a Federação, se a Associação Caramuru Vôlei quiser disputar as próximas edições da Superliga, vai precisar quitar os débitos para jogar tanto a competição nacional quanto as estaduais.

Do outro lado, o secretário Municipal de Esportes, Marco Macedo, vê incertezas em relação ao vôlei por conta da pandemia, mas crê que o formato adotado pela administração - com pagamento direto entre patrocinadores e jogadores - foi eficiente.

"Eu acho que esse modelo deu certo porque todos os atletas receberam em dia, inclusive no último mês [da competição] receberam adiantado. Não tivemos nenhum problema semelhante aos anos anteriores", argumenta o secretário.

* Com apuração dos jornalistas Felipe Gustavo e João Vitor Rezende

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