Sobre a luta de ser mulher e torcedora nos estádios da vida

Sobre a luta de ser mulher e torcedora nos estádios da vida

Em jogo do Operário quando ainda não tinha o sócio ouro - Foto: Danilo Schleder/Arquivo

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Eu sempre gostei de esportes num geral. Eu sempre amei o futebol, mas nem meu pai, nem meu irmão mais velho compartilhavam dessa paixão.  Mesmo não tendo um incentivo ou uma companhia em casa, nunca me foi proibido gostar e até jogar futebol por ser menina. Sempre tive muita liberdade em fazer minhas escolhas independente do meu sexo.

Porém, a ida ao estádio não me era permitida, pois "não era lugar de menina". Só com 18 anos tive minha alforria, mas ainda preciisava levar meu irmão mais velho de guarda. Me lembro bem das primeiras idas ao Germano, tudo era bem diferente, não existiam setores  e assistíamos aos jogos onde hoje é o setor ouro. 

Aos poucos eu fui fazendo amigos - e aqui vai uma saudação especial aos queridos “cornetas da vila”-, e só então as idas ao estádio começaram a ficar mais independentes e seguras. Eu também comecei a carregar algumas amigas junto, só que o ambiente ainda era extremante machista. Eu realmente podia contar nos dedos as mulheres que frequentavam os jogos do operário. 

Não dava para passar caminhar pelo estádio que homens mexiam conosco. Nossa alternativa era ou ficar nas pontas, ou entrar por trás das arquibancadas. Nessa tentativa de fugir do assédio, a gente se deparava com homens urinando pelos cantos, o que era bastante constrangedor. 

O Germano não tinha a estrutura que tem hoje, era tudo muito improvisado, de certa forma eles não faziam muita questão da presença feminina e não se esforçavam para promover simples melhorias como um banheiro feminino usável.  Confesso que só melhorou por volta de 2014, onde o número de mulheres e famílias aumentou. Com o título do paranaense de 2015, a cidade como um todo adotou o time, e com isso o perfil do torcedor operariano foi se modificando. As famílias, agora completas, começaram a frequentar os jogos! 

E eu realmente fico muito feliz em ir aos estádios de uma forma geral e ver muita mulher na torcida!  Ver que cada vez mais estamos tomando espaços e aumentando nossa representatividade. Claro que ainda não é o ideal, e ainda assim temos muitos casos de machismo e até violência contra mulher, mas estamos evoluído. 

Eu tento não me abalar com o machismo. Eu sofri e sofro ainda com olhares desconfiados de quem acha que eu não entendo de futebol, que não sei do que eu estou falando, que eu não deveria estar ali. Ou então de que eu estou ali pra “caçar” homem, pegar jogador, me dar bem! 

A linha que eu ando é muito estreita, eu me policio sempre para não dar a entender que eu quero alguma coisa a mais, ou que eu não to dando em cima de alguém. Hoje tenho muitos amigos da arquibancada, que me conhecem que me ouvem, que concordam com minhas cornetadas durante os jogos, e isso é realmente reconfortante!

E, apesar dos pesares, ser mulher e ser  torcedora é bom! E eu fico muito feliz em ver o Germano cheio de mulheres e de meninas, todas com a camisa do clube, assistindo, cantando, criticando e torcendo a sua maneira! 

Espero que cada dia mais a mulher possa ser respeitada no ambiente do futebol, que as comentaristas não sejam diminuídas, que as assessoras não sejam xingadas, que as bandeirinhas não sejam questionadas em todos os lances, que as juízas não sejam desrespeitadas, que as torcedoras não sejam assediadas e que um dia a gente alcance o mínimo: que é o respeito! 

Respeito e o direito de simplesmente pertencer a esse mundo até hoje tão masculino. 

Feliz dia da mulher a todas as mulheres que fazem o futebol, seja na arquibancada seja em campo, seja atrás dos microfones e câmeras, seja atrás dos balcões e bandejas, seja na segurança e na comissão técnica! Vocês merecem muito respeito e apoio, contem sempre comigo! 

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Kamila Padilha

Kamila Padilha

Graduada em Direito pela Universidade Estadual de Ponta Grossa, advogada, ponta-grossense sócia de um escritório de advocacia na cidade de Curitiba, apaixonada por esportes e torcedora operariana. No Net Esporte Clube traz uma visão de torcedora, relembrando histórias e causos da arquibancada.