O eterno Mayr

O eterno Mayr

Mayr completaria 94 anos agora em abril - Foto: Arquivo

Mais ponta-grossense do que muitos que nasceram na cidade, Mayr Facci foi uma figura ímpar. Carismático, alegre e contador de boas histórias, o ‘Mão de Gato’ foi um verdadeiro ídolo, dentro e fora das quadras, e virou referência quando se falava da cidade de Ponta Grossa.

Natural de Catanduva, São Paulo, ele adotou a cidade dos Campos Gerais durante uma excursão com a seleção brasileira na década de 50. O motivo: se apaixonou pela futura esposa que acompanhava os treinos e ficou por aqui. Construiu a sua família e pode registrar mais um pouco da história no basquete brasileiro. 

SAUDADE

Mayr completaria 94 anos agora em abril. Para o filho Marcus Facci, é sempre um momento de emoção e boas lembranças para toda a família e amigos. “A saudade que fica é muito presente. Sempre tive o meu pai como meu ídolo e com todo esse carinho que ele recebeu, damos ainda mais valor pela sua história e pela pessoa que foi”, conta.
Para o filho, Mayr sempre foi um homem sábio, que se dedicou muito e soube aproveitar as oportunidades que o esporte lhe proporcionou. Muito brincalhão e contador de histórias, o ex-atleta deixa as boas lembranças na memória de quem teve o prazer de conviver com ele. “Ele sempre gostou de contar causos até porque teve muita história para contar. E te falo que ainda hoje estamos descobrindo coisas que ele nem chegou a contar em vida. Mayr foi um astro mundial”, relembra, emocionado, Marcus. 

HOMENAGEM

Como uma pequena homenagem ao grande Mayr, a família e a todos que tiveram o prazer de conviver com ele, relembro aqui alguns trechos de uma das entrevistas que fiz com ele. Foi uma tarde mais do que agradável. Eu e o fotógrafo Rodrigo Czekalski fomos recebidos por ele e a família no Rancho Dallas para uma entrevista especial para o Jornal da Manhã. O ano era 2008. Era véspera da realização da 10ª edição do torneio de veteranos, que levava o nome de Mayr e reunia os ‘coroas’ bons de bola, como o próprio homenageado brincava.

O salão era quase um mini museu. Troféus, medalhas e muitas lembranças da gloriosa carreira de Mayr. Mesmo com toda a sua história de conquistas, ele nunca deixava a humildade de lado. Fazia questão de contar os fatos marcantes, reforçar as dificuldades encontradas e não se importava de ajudar e dar dicas para quem estava começando no esporte. 

CONFIRA TRECHO DA ENTREVISTA REALIZADA EM 2008

Você teve passagens por diversos clubes. O que te chamou a atenção na cidade para ficar?
MAYR FACCI – Foi a esposa, um grande motivo. Cheguei e depois a conheci e acabei ficando. Além disso, o basquete ponta-grossense começou a crescer e passou a ser de âmbito nacional e o pessoal daqui me segurou.
Primeiro joguei no Catanduva Esporte Clube (SP), depois Cestobol de Catanduva. Vim para Ponta Grossa e joguei no Guarani, mas tive em São José dos Campos, Sorocaba, Jabotical e diversas cidades do interior de São Paulo. Vim para Ponta Grossa e depois fui para o Rio Grande em 1960. Fiquei no Corinthians de Santa Maria e fui tricampeão gaúcho de basquete, quando fui como técnico e jogador. Depois voltei para Ponta Grossa, mas aí já estava no fim de carreira.

 Qual é a sua relação com a cidade de Ponta Grossa?
MAYR – Fui muito bem recebido. Sou até hoje muito bem visto. A gente procura ser uma pessoa mais sorridente com todo mundo e sem máscara, o que influi bastante também. A gente vai abraçando e dando as mãos e de mãos dadas a gente vai longe.

E como você, um ídolo do basquete, trabalha com os mais jovens que o veem como um espelho?
MAYR – Isso é muito importante porque envaidece. A criançada olha a gente como um ídolo, uma pessoa que teve uma fase no esporte, que teve nome. Eles ficam olhando, conversam e fazem perguntas. E a gente vai dialogando com eles, com sorriso e entusiasmo, sempre com muita alegria, amor e carinho.

E essa homenagem com a realização do torneio de veteranos?
MAYR – Esse é o 10º Torneio Mayr Facci e isso me envaidece. Me deixa orgulhoso porque vem uma plêiade de jovens coroas que eram do meu tempo e isso aí sai até lágrimas quando a gente começa a relembrar. Isso dá um estímulo grande e a gente serve de espelho, juntamente com os outros. A gente fica alegre e contente porque a juventude procura o bom e nós procuramos dar da gente o melhor possível.

Como foi essa experiência de disputar uma Olimpíada? Um sonho realizado?
MAYR – Eu acho que a pessoa chegando em uma Olimpíada é o ápice do atleta. Para chegar lá, os degraus são muito grandes. A pessoa precisa ser persistente, consciente e educada esportivamente. E fora do esporte tem que ter saúde, sendo obediente com os companheiros e técnicos. Os passos são largos para esses degraus, mas é preciso ter paciência.

O basquete foi o primeiro esporte?
MAYR – Eu comecei basquete com 18 anos. Antes eu praticava atletismo e fui para seleção brasileira com 25 anos. Foi a primeira vez que fui vestir a camiseta da seleção brasileira. Até nesta época foram convocados 48 jogadores, quando fui chamado pela primeira vez. Tinham ‘os cobras’ do passado. Eu achei que não tinha vez, mas eu falei: se eles forem melhores, que provem dentro de campo. Fui ficando e quando cheguei entre os 15, três tinham que ir para fora e agora achei que seria a minha vez. Aí, fiquei entre os 12 e pensei: agora a briga é com todos e quero ser titular. E acabei sendo titular, aí que foi o orgulho que tive na carreira.

Qual foi a sua virtude para essa conquista?
MAYR – Foi a dedicação, a coordenação motora, a visão. Isso tudo influi. A rapidez, eu pulava muito e enterrava a bola fácil naquela época, embora eu seja baixo, mas tinha uma impulsão muito grande. Foram alguns dos motivos que me seguraram na seleção, porque muitos não tinham como me marcar.

E então foram oito anos com a seleção?
MAYR – Disputei duas Olimpíadas, a da Finlândia em Helsinque (em 1952 – fez oito pontos em sete jogos) e a da Austrália em Melbourn (em 1956 – fez 10 pontos em cinco jogos)

Você acredita que cumpriu com sua missão no basquete?
MAYR – Eu gostaria de ser jovem novamente e estar na seleção para acabar de cumprir. Porque eu gostaria de ser eterno jogador de seleção brasileira, embora eu seja convocado para os veteranos. Quando termina um [torneio de veteranos] já queremos o outro. E isso nos dá uma existência maior para gente.

Segue assim sua trajetória dentro e fora das quadras?
MAYR – Correndo atrás da bola, como eu falo, porque jogar eu jogava lá em 1800 mesmo [brinca]. Agora a gente corre atrás da bola com os companheiros. E depois desses jogos vêm os comentários das partidas. Um fica falando que eu pulei e subi, mas subiu cinco centímetros do chão e diz que subiu barbaridade. E é isso aí que dá a alegria dos encontros e por isso que a gente tem de dar continuidade com o esporte. É o que o esporte proporciona, desde a infância até a minha idade ou até mais. Por isso digo para a juventude que procure praticar esporte, que traz educação, amor, carinho e foge das drogas. Assim você terá a continuidade na vida particular e esportiva.

PERFIL 
Posição: Ala 
Data de Nascimento: 07/04/1927 
Data de Falecimento: 11/03/2015
Naturalidade: Catanduva, São Paulo 
Altura: 1,81m 
Clube que começou: Catanduva (SP) 
Último Clube: Santa Maria Atlético Clube / 1965  
Clubes em que jogou Catanduva (SP), Cruzeiro Cestobol (SP), Eldorado Paranaense (PR), Guarani (PR), Corinthians (RS). 

Principais Resultados Pela seleção:

- Jogos Olímpicos
. 6º lugar em Helsinque (Finlândia - 1952) - 8pts/7 jogos
. 6º lugar em Melbourn (Austrália – 1956) - 10pts/5 jogos

- Campeonato Mundial
. vice-campeão (Brasil - 1954) - 63pts/8 jogos

- Jogos Pan-Americanos
. medalha de bronze na Cidade do México (México – 1955) - 45pts/5 jogos

- Campeonato Sul-Americano
. vice-campeão (Uruguai – 1953) - 24pts/5 jogos

LEMBRANÇAS
- Título mais importante 
O vice-campeonato mundial no Rio de Janeiro, em 1954. 

- Momento inesquecível 
A participação nos Jogos Olímpicos de 1952 e 1956. 

- Carreira na seleção
Mayr Facci marcou 150 pontos em 30 jogos pela seleção brasileira em competições oficiais

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Alexandre Costa

Alexandre Costa

Alexandre Costa é jornalista formado pela Universidade Estadual de Ponta Grossa em 2001. Pós-graduado em Assessoria de Comunicação, Gestão Estratégica de Pessoas e com MBA em Gestão Empresarial. Foi produtor e editor na TV Guará-Rede Massa e na RPC Ponta Grossa. Também já foi repórter e chefe de redação do Jornal Diário dos Campos e do Jornal da Manhã, além de ter trabalhado na Rádio Sant’Ana e CBN Ponta Grossa. Trabalhou como assessor da Paraná Esporte na cobertura dos Jogos da Juventude do Paraná e Jogos Abertos do Paraná e foi o idealizador do portal esportivo Net Esporte Clube em 2009. Escreve sempre às sextas-feiras.

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